PAULICÉIA DESVAIRADA
- Quartier des Arts
- 26 de jun. de 2022
- 2 min de leitura
ARTS QA LITERATURA CLÁSSICA
POR CARLOS RUSSO
"PAULICÉIA DESVAIRADA"
Prezadas quartières,
Nossa sugestão de leitura é o livro “Paulicéia Desvairada”, de um de nossos intelectuais maiores: Mário de Andrade.
A “Paulicéia” indica o momento histórico da primeira fase do modernismo no Brasil, a reação contra a coisificação do indivíduo, a prepotência do mundo, o esmagamento da subjetividade, a negação do humano. A vida moderna desvaira o poeta e este transfere seu desvairismo para a vida moderna. Havia “exageros” na poesia, reconhecia Mário, mas fora necessário mantê-los por serem representativos de um estado d’alma.
Sentimos diante de cidades tentaculares uma mistura de fascinação e repulsa; fascinação pelo movimento poderoso que elas contêm, repulsa pela parte monstruosa e envolvente desse mesmo movimento.
“Horríveis as cidades! Vaidades e mais vaidades...
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! Tumultuários da ausência!
Paulicéia- a grande boca de mil dentes;
E o jorro dentre a língua trissulca de pus e de mais pus de distinção...
Giram homens fracos, baixos e magros... Serpentina de entes frementes a se desenrolar...
Estes homens de São Paulo, todos iguais e desiguais,
Quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
Parecem-me uns macacos, uns macacos.”
São Paulo transforma-se em uma cidade subjetiva, e é percorrida sob a ótica de o Arlecchino, personagem bufo de comédia d’arte, farsante e amante cínico, que despreza as conveniências e fórmulas sociais. O poeta-palhaço é o ator da própria peça, reinterpretando o instinto de nacionalidade na praça pública, sem o pudor de assumir a experiência da farsa e da irreverência. Assistiremos a antropofagização do espaço da farsa.
“Quá, quá, quá! Vamos dançar o fox-trot da desesperança,
A rir, a rir dos nossos desiguais!”
Tenho certeza que todas vocês passarão a amar nosso mais múltiplo artista tanto quanto eu mesmo.

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